terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

Paz Inominada

Eu só peço, de todo o meu medo,
com todo o meu amor,
de toda a minha angústia,
desde os meus sinceros votos de perdão
até o meu desprendimento e absoluta solidão,
de uma vez por todas,
deixe-me em paz.
Esse meu mundo que você não entende,
esse seu julgamento inconveniente,
esse seu ar de total indiferença,
essa ausência da sua presença,
e todos os tiros disparados contra um coração em pânico,
e as totalidades dos pedaços que ficaram,
são os meus apelos pela paz que persigo e não tenho,
é a minha vontade de voltar de onde venho,
não me julgue, não me odeie, não me abandone,
apenas me deixe em paz.
E em meu silêncio,
mesmo que jamais saiba,
eu estarei a desejar-lhe toda sorte do mundo e
toda a paz que não tenho.

Vôgaluz

terça-feira, 5 de julho de 2016

Close to me

sempre fui muito emotivo 
paixão à flor da pele
tipo fixação pura
coração na boca 

ultimamente tenho treinado 
os músculos retorcidos e atrofiados 
da minha racionalidade... 

a dor é inevitável, 
mas é possível sofrer menos.


[ACORDOABSURDO parte II - Vôgaluz]

segunda-feira, 20 de junho de 2016

Alto-mar

Antigamente me diziam: "faça isso, não faça aquilo!"
Eu ficava perdido, angustiado, tentando me encontrar. 
Foram tantas as cabeçadas, foram todas as decepções... 

Hoje me dizem: "faça isso, não faça aquilo!" 
Passo as mãos pelos cabelos brancos e encaro no espelho 
meu semblante estúpido, cansado de muita porrada, 
fecho os olhos e me deixo guiar pela bússola que trago no peito, 
mesmo que me perca, mais uma vez, 
neste mar revolto e colossal chamado vida.   

                                                 [ACORDOABSURDO parte II - Vôgaluz] 

domingo, 5 de junho de 2016

O poeta


O poeta trabalha na penumbra da noite 
transformando palavras em elementos do ar. 
A estranha figura, ao acaso por acaso, 
define os assombros das portas que se abrem 
à frente de cada fracasso, de cada decepção.
O poeta não existe!
É um fantasma social.
No entanto, ele insiste!
Para o bem ou para o mal.
Andando pelas ruas feito uma besta humana,
mendigando atenção,
procurando carinho e levando bofetadas,
suplicando um sorriso das caras mais feias,
o solitário andarilho sonha com um tapete voador
de palavras cruzadas,
que lhe leve um pouco da dor que sente no coração.
E nesta tentativa frustrada,
o poeta se empenha em ser a própria poesia perdida,
um traço do amor que já não existe,
a gentileza banalizada pelas vaidades de olhos cansados,
num mundo belo,
estranhamente belo,
e triste demais.


[ACORDOABSURDO parte II - Vôgaluz] 


sábado, 20 de fevereiro de 2016

para-choque de caminhão

desde que eu encontrei 
os teus lindos olhos 
- brilho de mel - 
na multidão, 
algo mudou 
e esta vida sofrida 
ganhou o céu 
e a imensidão, 
eu trazia no peito 
fragmentos de felicidade 
e uma expectativa 
se era amor ou amizade. 
mas tem muitas coisas 
que não adianta 
sequer tentar entender  
pois naquele dia 
o que eu mais queria 
era apenas te ver. 
flores na mão 
e uma canção, 
muita fantasia, 
tudo ilusão.  
amei demais 
me dediquei 
foste um sonho 
e eu acordei, 
pois o teu carinho 
de para-choque de caminhão 
matou minha esperança 
e atropelou meu coração.

[ACORDOABSURDO parte II - Vôgaluz] 





   

sábado, 6 de fevereiro de 2016

ABORDAGEM

Por que você não vai à escola? 
Por que você não lê no domingo os jornais de domingo? 
Por que você não cala a boca e fica quieto? 
Por que já não pergunta o porquê das coisas? 
Por que você não chega mais cedo? 
Por que não ganha mais dinheiro? 
Por que você não vai às ruas? 
Por que não se casa? 
Por que você não compra uma bicicleta? 
Por que você não lê mais livros? 
Por que não se separa? 
Por que você não pratica um esporte? 
Por que você não escreve um poema? 
Por que você não aparece? 
Por que você não some de vez? 
Por que não publica um livro? 
Por que você não para de fumar? 
Por que você não para de beber? 
Por que você não finge igual ao Pessoa? 
Por que você não deixa pra mais tarde? 
Por que você não fica feliz igual todo mundo? 
Por que você não é mais simpático? 
Por que você não cresce e aparece? 
Por que você não força a barra? 
Por que você não usa a camisa do seu time? 
Por que não emagrece? 
Não faz regime? 
Por que não gosta do que não gosta? 
Por que você não sabe cantar o hino nacional? 
Por que não vai às urnas e vota legal? 
Por que você não sofre e vai ver o mar? 
Por que você não ama o que tem pra se amar?

Tenho por mim que 
no dia em que a poesia se tornar trabalho ou obrigação, 
perdeu a graça.


[ACORDOABSURDO parte II - Vôgaluz]

sábado, 16 de janeiro de 2016

Árvore de Poemas


plantei uma árvore de poemas no quintal do meu amor, 
eles amadureceram, não pude colhê-los, caíram no chão. 
sob os efeitos da chuva, do vento, do sol, ou de outra paixão, 
eles apodreceram, sem ninguém pra colhê-los, no meu coração.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

SEU RISO

Quando o seu riso reluziu de novo,
a minha vida retomou o rumo,
convém que seja simples, eu presumo,
seu riso lindo, eterno e majestoso.

O único momento era viver
um amor para sempre neste riso.
Eu nunca poderia me esquecer
que em você tenho tudo o que preciso.

Então me dá sua mão, faz tanto tempo...
Sem seu abraço nunca fui feliz,
longe do seu amor quase morri

sufocado com tanto sentimento,
tanta saudade, mas eu sempre quis
estar em paz vendo você sorrir.

                                                                      Revocê - Vôgaluz

domingo, 11 de outubro de 2015

DOIS MUNDOS

Se soubesses quanta falta me fazes
o ar que respiro se afastaria
e todo espaço seria ocupado pela tua presença.
Eu te falei da minha vida,
das minhas frustrações,
das minhas doenças, dos meus medos,
dos meus aleijões.
Tua voz me encantava e falavas dos teus dias,
minha melancolia bebia da tua alegria.
Tentei escalar as paredes lisas do teu castelo,
cai sobre as pedras da tua indiferença,
mas vislumbrei a paz pelos olhos que tinhas,
e continuei a escrever o teu nome pelos muros da cidade.
Desde então a tua ausência se fez
meu principal motivo para lembrar cada momento,
cada minuto, cada encontro repentino,
e as poucas ocasiões
em que olhamos juntos para a mesma direção e, sem querer,
construímos nossa triste história e
nos despedimos sem nenhuma razão.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

sábado, 26 de setembro de 2015

VOAR

Pudesse voar,
voaria por sobre as casas,
por sobre as montanhas,
por sobre os vales, parques e florestas,
perto dos sonhos que se perderam,
acima dos muros e dos solitários.
Depois pousaria nos campos de milho,
nas praças abandonadas,
nos quintais sombrios,
na sorte dos homens,
feito um disco voador.
Anjo meu, Anjo meu,
definitivamente,
me empresta tuas asas! 

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz] 

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

ESCADA IMAGINÁRIA

Pense nas tuas mãos exaltando o milagre da vida.
Noutra direção os teus olhos contemplam o pão do teu trabalho.
Daqui de onde os meus pés tocam o chão,
sinto o ar mais leve que a tua lembrança.
Talvez o amanhã caia em nossas mãos
feito fruta madura
e nós nos esqueceremos dos nossos medos
quando andarmos nas nuvens.
Um dia encontraremos o jardim onde os girassóis de Van Gogh
brilham mais que o sol.
Lá a felicidade não é de plástico, papel ou metal.
Agora estamos,
daqui a pouco já não estaremos mais.
O amor é o que fica porque enquanto a humanidade se perde em suas guerras cotidianas,
a poesia constrói, degrau por degrau,
uma escada imaginária na direção das estrelas. 

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

sábado, 19 de setembro de 2015

PLANETA PAZ

É preciso evitar que o leite se derrame
e que as crianças bebam desesperança.
É preciso ter vergonha na cara
e parar de culpar o próximo pelos próprios fracassos.
É preciso ter coragem para encarar o medo.
Até onde eu saiba ninguém se perdeu quando lutou.
Os muros da cidade segregam histórias parecidas,
as conversas de mesa também se parecem,
e toda razão restou inútil,
assim que a inocência foi violada.
As pedras me machucaram bastante
nesta caminhada triste e solitária,
todos os dias eu penso nisso, meu Deus!
Onde está a paz de que tanto precisamos?
Em resposta recebo minha parcela de culpa
pela descrença total nas boas intenções.
Não deve haver flores
nos jardins destruídos
do nosso próprio Armagedon
e nem palavras vagas no livro da vida.
Tantos procuram pela firmação dos seus cultos,
mas este ser defeituoso e incompleto
defende princípios românticos decadentes
carregando sua bandeira puída e desbotada
em prol de todos aqueles que esperam
que um dia este planeta se chame Paz.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

terça-feira, 15 de setembro de 2015

HELLMANN'S

Acabou o presunto.
A laranjada é a única esperança
para um estômago cavernoso.
O dia foi longo,
a noite é mais longa ainda,
mas a jarra vazia
- sobre a frígida pia –
explica tudo.
Acabou o leite,
se foi com ele a expectativa líquida noturna.
Acabou o bolo,
o queijo,
o molho,
o beijo,
a sopa fria,
a pizza gelada,
o pudim de milho,
a broa amassada.
Só tem maionese e um pão sobre a mesa,
casamento perfeito
entre o que há e o que se pode.
O estômago agradece
- na humildade –
todo alimento é sagrado
e quando dele precisamos
é que nos lembramos de olhar para o céu e dizer:
Senhor, obrigado por tudo! 

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

sábado, 22 de agosto de 2015

COISA DE POETA

esse negócio de escrever versos de amor
enquanto o mundo está de cabeça pra baixo
é coisa à toa,
é coisa de passarinho,
coisa de gente besta,
coisa de poeta.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

UMA LINDA HISTÓRIA DE AMOR

Naquela noite,
a valsa indicava um quê de felicidade
e ninguém podia disfarçar
o entusiasmo repentino e efêmero da bonança.
Foi quando ela atravessou o salão
com seu vestido perfeito
mudando o rumo da história
de um homem infeliz.
Dalí por diante,
somaram-se à química da ocasião
todas as juras de amor, promessas de fidelidade,
todos os votos de alegria eterna
e a vontade de viverem juntos para sempre.
Passaram-se dias, meses
e até alguns anos de cordial comunhão.
Até que certa vez...
Bem, paro por aqui!
Lindas histórias de amor deveriam eternizar-se pelo começo.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

Obs.: "The Vienesse Waltz" pintura de Vladimir Pervuninsky.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

QUALQUER PESSOA PODE ESCREVER UM POEMA

Qualquer pessoa pode escrever um poema
porque toda história merece registro,
porque cada experiência é real.
Ontem à noite eu pensava em você
e perguntava às estrelas
porquê? porquê?
Havia milhões de razões para esquecer
a música de nossas vidas
e evitar as lembranças
de tudo o que passei ao seu lado.
Mas daí, eis o eixo que muda o desfecho,
com o seu nome escrevi alguns versos e
pendurei no varal um novo poema,
foi no sereno da madrugada
que molhei o papel com minhas lágrimas.
Nem precisa tirar a roupa,
molhar os cabelos,
fingir que se importa ou
preparar outra história para ouvidos floridos.
Todo amor tem começo, meio e fim.
Mas se realmente foi amor valeu a pena.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz]

sexta-feira, 31 de julho de 2015

VERSOS N'ÁGUA

Esse barulho todo que vem da sala.
Esse grito estridente que vem da sala.
São insuficientes os meus ouvidos pra tamanho sermão.
A boca cala e a mente dispara
diante de tanta hipocrisia,
diante de tanta apelação.
Tudo certinho.
Tudo arrumadinho.
Tudo bonitinho.
E esses versos toscos escritos n’água
teimam em me aprisionar
atrás das grades da imperfeição.
Nada desses discursinhos baratos da moda.
Nada desse ritmo cansativo que é foda.
Nenhum conselho, nada de novo.
Nenhum arrepio nem babação de ovo.
Estou longe, longe demais,
deixem-me ao menos morrer em paz.
Essa conversa tola que vem da sala
são apenas meus versos toscos escritos n’água
e isso já é o suficiente pra incomodar.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz Miranda]

domingo, 26 de julho de 2015

AMIZADE

amassaram o tomate,
espremeram o limão,
mas a nossa amizade 
levarei por toda parte 
dentro do meu coração.

ACORDOABSURDO - Vôgaluz

domingo, 19 de julho de 2015

UNE FEUILLE DE PAPIER

desses dias em que a saudade é tanta
que o coração tenta buscar
uma canção,
um sorriso,
um gesto que ficou no tempo
registrado na memória 
em aço e concreto armado,
eu quero um ano,
uma década,
um século
e, quem sabe, um segundo dos teus passos
percorrendo meus caminhos tortuosos,
enquanto me distraio
inventando um final feliz.
à noite,
quando o silêncio disse a que veio,
alguém pegou o livro com a minha história
e fez o maior estrago.
desde então,
ando perdido neste labirinto azul,
teimando à beira do precipício,
dando murro em ponta de faca.
só agora sinto
que o tempo passou,
o bonde passou,
que as palavras pesam e
que uma simples folha de papel 
queima em minhas mãos.

[Vôgaluz Miranda - ACORDOABSURDO]

quinta-feira, 16 de julho de 2015

O OTIMISTA

Não li os jornais da semana passada nem me preocupei com as roupas no varal.
Não cai de costas com as mentiras da televisão.
Não levantei, não arrumei a cama.
Segunda-feira não acendi vela para a minha alma.
Não fui à escola, também não quis estudar.
Desisti da minha coleção de figurinhas, das músicas e poemas.
Procurei não saciar a minha sede de certezas.
Não lamentei meus erros nem desejei voltar atrás.
Não tropecei na escada.
Não comemorei o gol do meu time.
Dei razão a Stevie Wonder, “I just called to say I love you”.
Nunca mais te convidei para sair, tentei me esquecer de todos os teus nãos.
Não fiz a barba, não disse besteiras e não provei o café.
Não sorri da tola piada.
Furei a greve.
Não quis acreditar no que parecia normal.
Não pisei na grama e não transgredi as regras.
Não tive medo da escuridão da noite.
Não corri da chuva.
Deixei de lado toda a razão que nunca tive.
Decidi guardar todos os sins para te dar.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz Miranda]

domingo, 12 de julho de 2015

MESMICE

é a mesma estrada. é o mesmo mundo. a mesma forma de escrever os mesmos versos. o mesmo embrulho, presente velho. e mesmo a hora de mudar de opinião. é tudo o mesmo nada. sempre o mesmo medo. ontem o mesmo frio no mesmo cedo. e eu sempre o mesmo. o mesmo amor. a mesma paixão nas mesmas voltas do coração. os mesmos livros e as mesmas palavras. a mesma massa pro mesmo pão. o mesmo tombo no mesmo chão. é “mais do mesmo” da Legião. e a mesma rima sem solução. da janela a mesma rua. na mesma tela de paisagem mesma. ando ensimesmado comigo mesmo. gosto de fazer o mesmo, da mesma forma, com as mesmas normas, o mesmo enredo.
um raio de sol aquece o ar e toca as flores com dedos quentes. fico feliz ao dizer que um novo dia vem sempre do mesmo gesto, depois da mesma noite de todo dia, para que possamos prosseguir fazendo as mesma coisas com todas as nossas diferenças.
[Vôgaluz Miranda - ACORDOABSURDO]

domingo, 14 de junho de 2015

GEOVANA

Nesse mundo cheio de tristezas e ilusões, 
uma fadinha linda, alegre e sorridente,
marcou-me o caminho, a memória, a vida. 
Mas um dia a fadinha se cansou, 
deitou-se,
dormiu
e foi morar com Deus.

[ACORDOABSURDO - Vôgaluz Miranda]

segunda-feira, 27 de abril de 2015

O equilibrista


Enquanto o mundo gira
o equilibrista caminha na corda bamba
sobre as cabeças que carregam toneladas de problemas
sobre os carros estressados e entupidos de fumaça
acima dos prédios cheios de vidas complicadas
abaixo apenas do céu
do sol
de Deus
da lua e das estrelas.
[ACORDOABSURDO - Vôgaluz Miranda]

domingo, 12 de abril de 2015

SERIAL KILLER

Eu quase confessei os meus crimes
Que não foi por acaso cada ocasião
Que no momento exato houve inspiração
Que no fim da linha há uma nova estação
Que tudo o que fiz foi de coração
E mesmo que eu jamais esclareça o que é tão comum
Acho que o meu maior crime foi amar sem motivo algum.

ACORDOABSURDO - Vôgaluz

terça-feira, 10 de março de 2015

ORELHA SECA

Orelha seca escutas tudo o que não te diz respeito! Atrás das portas, na vizinhança, calada da noite, à luz do dia. Muitos são os segredos que tanto ouviste e que ninguém contou. Orelha seca, amiga da boca torta, enorme, tagarela, decodificadora da mensagem distorcida da vida alheia, és como esponja absorvedora do desconhecido, viras do avesso cada destino. Orelha atenta, seca e insensível é melhor que escutes bem para não te equivocares no entendimento do que não interessa para tanta gente, mas para ti, orelha orelhuda, o que mais interessa é o que não devia. Orelha gigantesca, presunçosa, bagunceira, pilantra, te finges de mouca, ponteando cada palavra sussurrada no fundo da tua parede auditiva, bisbilhotices mais que necessárias. Orelha de pelo, de lã de carneiro, deixe minha vida em paz, deixe meus segredos serem secretos, sabias que um dia Van Gogh não a quis? Tá me ouvindo, orelha seca? Tá me escutando, porra? Tá me escutando, porra? ... Hein?
[Revocê - Vôgaluz Miranda]

sábado, 28 de fevereiro de 2015

FÁBULA


Tinha uma casinha amarela
- quase azul -
onde um gnomo retirava flores do jardim
e as plantava no ar.

ACORDOABSURDO - Vôgaluz

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

MARIA

Maria, o que tens guardado na boca?
É beijo esquecido,
Pão amanhecido
Ou água salobra?

Maria, o que trazes na palma da mão?
Amor reprimido,
Segredo escondido
No teu coração?

Não fujas, Maria! Já sei de onde vens!
Presente ou passado,
Destino traçado
Na vida de alguém.

REVOCÊ - Vôgaluz Miranda

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

MIOPIA PÚBLICA

Enganaram você
Você nem percebeu
Se você estiver certo
O enganado sou eu

O “jabá” rola nas rádios
A televisão tem seus macetes
Meus ouvidos doem
Com tanta música demente
Qual será a melhor mentira
Das revistas e dos jornais
“O país mudou”, “Sua vida melhorou”
Ah! Assim já é demais!

Estragaram você
E ninguém interveio
Se isso tudo é bonito
Eu prefiro ser feio

A maior cantora
Me mata de vergonha
Desafina e disfarça
Que vozinha medonha!
O poeta sem mensagem
Dissimula erudição
Envenena a poesia
Que baita fanfarrão!
Não se faz política
Se não houver alianças
Deus e o diabo no mesmo altar
E a festa vai recomeçar
No fim das contas
Você é quem dança

Apertam a sua mão
Quando é conveniente
Cuidado com os lobos
Que escondem os dentes!
Você acredita na especialização
Da crítica “jabaculê”
Roubam sua mente e desesperadamente
Você ainda paga pra ver

Fuzilaram você
Que acha que não morreu
Se você está vivo
O defunto sou eu

Não querem que você tire
Suas próprias conclusões
O photoshop transforma
Barangas em aviões

Você, cidadão honesto, que paga as contas em dia
Até quando será herói
Enfrentando os juros que corroem
Seu salário mixaria?

É tanta enganação
Que não vale a pena não
Perder mais do meu tempo
Nessa longa explanação
É tanta enganação
Que me dói o coração
Se você tem certeza
Eu perdi a razão.

REVOCÊ - Vôgaluz Miranda

sábado, 3 de janeiro de 2015

EU QUERIA ESCREVER UM POEMA

Eu queria escrever um poema que unisse os nossos corações
Depois da loucura de procurar razão onde havia delírio
Perdi meus passos no dia em que errei o seu caminho
Minhas mãos tremem e é quase insuportável o peso das chaves
Por isso, a porta continuará fechada até você voltar

Não queria fazer drama
Não queria suplicar
Não queria chorar
Eu só queria escrever um poema que falasse da gente
Que tocasse na mais linda canção de amor
E que trouxesse de volta tudo o que a gente não viveu.

Vôgaluz Miranda - Revocê