sábado, 1 de setembro de 2012

BOB DYLAN























tive a intenção de arriscar voos mais altos
escalei castelos de vento
em busca da resposta
que nunca veio
depois, caí na sarjeta do esquecimento
e contemplei com entusiasmo
um dia para nunca mais
tive a pretensão de caminhar sobre as águas
toquei o seu rosto de ferro fundido
- com dedos de vidro -
até atingir seus lábios
e caminhei a sua estrada de palavras
aproximei-me da igreja de infiéis
continuei morto no abismo da ocasião
senti meus olhos
fixarem-se em cada verso e imagem
enquanto sofria no áspero som
- nudez criativa do começo e do fim -
não sei explicar o que havia de definitivo
não sei definir o que havia de explicável
só sei que havia um cheiro agridoce no ar
morri várias vezes
esmagado pela pedra rolante
e vi quando a nuvem escura forçou a porta do céu
tive medo do desconhecido
mas, apesar de tudo, encontrei a paz
de que tanto precisava.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 15 de julho de 2012

ERROR

Tem um homem parado na esquina
E uma esquina parada num homem
A certeza que mais se aproxima
É que tudo parou de repente

E uma esquina parada num homem
É mistério que teima em ficar
Assombrando a vida que surge
A matar o que é flor na semente

Sei que tudo começa e termina
Basta o sol neste rosto encardido
Deste homem parado e perdido
Que é uma esquina parada na esquina

(In: Canções para os intervalos)

sábado, 23 de junho de 2012

SÃO JOÃO



Me lembro do povo unido
e das crianças felizes
brincando de pega-pega
na noite fria e concreta
de um mundo triste e esquecido,
"Esquina das Meretrizes".  
Meu coração ainda arde
cheio de tanta paixão,
e a mocinha na janela,
fiz estes versos pra ela,
toda saudade me invade
fogueira de São João.

(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

LACUNA

entre mim e o tempo
há uma lacuna
espaço vazio
de vento e frio
de saudade
do calor do teu beijo

entre mim e o amanhã
há o medo
medo de ter medo
do medo
que afugenta o mais bravo leão

quando a noite vem
ninguém vem
quando as palavras somem
todos entendem
que a vida é abismo
caminho de pedras pontiagudas
brilhantes
onde sangram pés
cortados
arranhados
em desamor
em desarmonia
sem fé no dia a dia
e os dias se vão

ainda resta um coração aos pedaços
dividido entre as horas
entre a estrela e o punhal
no corte da carne quente
desta alma que sofre reprimida
transtornada pela vida

entre mim e a frustração
há uma granada
vislumbro meus braços cortados
servidos à mesa
enquanto meus olhos em desespero
esperam pelo talvez

(Canções para os intervalos)

domingo, 27 de maio de 2012

VELHA PALAVRA NOVA















Sei que você se cansou
Daquelas frases feitas
Sempre imperfeitas
- Patrimônio Histórico da Futilidade –
Muito chatas
E sem fundamento

Sei que pra você
Os meus versos são sempre os mesmos
Todos os versos são sempre os mesmos
Porque a poesia anda em círculos
E as palavras não mudam
São duras
Forjadas
Temperadas
De uso corriqueiro
Ou escondidas para fins mesquinhos

Tudo bem. Mas olha só!
Há algo diferente nesta que vai
Não vou falar de flores
Que não vou rimar com amores ou... dores
Eu trouxe pra você uma palavra sempre nova
- Não nova na grafia, é verdade –
Porém sempre rejuvenescida no significado
Na qualidade
Na ação
Na intensidade
Diferente visceral verbal. Sei lá!
Ouça bem, meu bem!
A palavra é: RECOMEÇAR

R E C O M E Ç A R

O Ministério da Saúde deveria advertir:
RECOMEÇAR FAZ BEM À VIDA,
CONJUGUE SEMPRE ESTE VERBO.

(In: Canções para os intervalos)

terça-feira, 1 de maio de 2012

IMPOSTO

imposto composto suposto sufoco mensal
assim faço que disfarço a surpresa boçal
não posso passar o mês sem saúde mental
sinto saudade da infância longe da sanha legal
sofro servo do sistema sem sonho sem sucesso
imposto, sossego e solicitude é só o que peço

(Canções para os intervalos)

sábado, 31 de março de 2012

SÃO TOMÉ

Acordei no breu da noite
Levantei da cama fria
Perdido na madrugada
A casa estava vazia
Tremendo de desespero
Rezei pra Santa Maria
Nunca quis acreditar
Nas coisas que me diziam
Pediram-me paciência
Que tudo melhoraria
Era questão de urgência
Mentira sobre mentira
Meus olhos viram cansados
A face da hipocrisia
Naquilo que me contavam
Naquilo que me diziam
Alice foi enforcada
No país das maravilhas
A sorte estava lançada
Mas ela não saberia
Que a forca nada mais é
Que uma falsa artilharia
De tudo o que ela pensava
De tudo o que ela fazia
Minha história é diferente
Tem no beijo a primazia
De tudo o que me contaram
De tudo o que me diziam
Mas eu nunca acreditei
Jamais acreditaria
Numa mensagem de paz
Nascida da covardia.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

* Pintura acima "a incredulidade de São Tomé", Caravaggio, 1599.

sábado, 17 de março de 2012

NATIMORTOS


Toda dor, cada passo
Todo acaso é de fato
Um menino sem destino
Ou menina pequenina
Que a fumaça traz no vento
Quando abafa um lamento
Um gemido inocente
De quem grita em silêncio.

Mas acorda quem dormia
No reflexo da agonia
Que se chama desespero
E mistura no agridoce
Sabor fresco de alguns dias
Sem canção, sem paixão
Mutilados corações
Adormecidos, natimortos.

(In: Canções para os intervalos)

quinta-feira, 1 de março de 2012

JOANNA

Ela já não tem vontade de viver
Sua mocidade foi tirada à força
O filho desejado nunca existirá
Não divide o seu drama com ninguém
Apenas cinco minutos de crueldade
Destruíram uma vida pra sempre

Joanna não quer mais amar ninguém
Joanna não vai mais à escola
Vai ao psiquiatra sozinha e da janela vê
Que as flores estão mortas no jardim

Na delegacia nada teve importância
Tinha dezesseis anos e nada a dizer
Sobre os seus sonhos interrompidos
Joanna vive presa no seu quarto escuro

E olha a foto do namorado que a deixou
É difícil crer que algo vai mudar
Joanna pensa em suicídio, pois não encontra
Nenhum remédio que alivie a sua dor

Joanna não pode mais amar ninguém
Joanna nunca mais foi à escola
Vai ao psiquiatra sozinha e da janela vê
Que as flores estão mortas no jardim.

(Letra: Vôgaluz Miranda / Música: Wagner Miranda - ano 1993)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ATRÁS DO POEMA

O que se esconde atrás do poema
Por ventura é realidade?
Entrega-se ao que não se tem
Estraga o que lhe convém
Sucumbe à fatalidade.

O que se esconde atrás do poema
É distração antidepressiva?
É tudo o que procura nada
Corte profundo
Lâmina afiada
É o que me resta nesta intensa vida.

O que se esconde atrás do poema
É, por acaso, um pouco atrevido?
É tensão em calma dissimulada
É canção triste e acalentada
É amor mal resolvido.

(in: Canções para os intervalos)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

CAMALEÃO

Camaleão
Tuas mudanças
Fazem de ti
Tão bonitinho
Sobre os teus ombros
O mundo pesa
Em tuas mãos
Tens meu destino
Todas as cores
Dentro do som
Levam adiante
Tua vontade
De estar em paz
De ir em frente
De ver a vida
Bem colorida
Leio contigo
Tantos jornais
Tantas revistas
Métrica e rima
Do mesmo livro
Quero que a chuva
Molhe tua pele
Quero que o sol
Seque teus pés
Sozinho pensas
A noite inteira
Nos teus amores
Que não têm fim
Sentes o gosto
Do sal do mar
Na tua boca
Rosa e vermelha
Fazes teus planos
Crias teus filhos
São todos eles
De algum lugar
Trocas de roupa
Trocas de carro
Trocas de casa
Sem se mudar
Camaleão
Não tenhas medo
De ser amigo
Tens no teu peito
Uma certeza
Não há paixão
Que te segure
Tudo o que sopra
É o mesmo vento
E caminhamos
A mesma trilha
Sem que saibamos
Onde chegar

Camaleão
Tarde demais
Na natureza
Somos iguais


(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 29 de janeiro de 2012

FOUR LITTLE BIRDS


O primeiro passarinho
Pousou no galho da mangueira,
Voou por entre as árvores do bosque
E se perdeu de vista.

O segundo passarinho
Caiu trucidado.
Estúpida pedra
Maldito estilingue.

O terceiro passarinho
Pousou na minha mão,
Depois no meu ombro
E uma nova mensagem
Soprou no meu ouvido.

O quarto passarinho
Jamais
Apareceu.


(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)

sábado, 21 de janeiro de 2012

SÃO PAULO

 Nota do poeta: Este poema foi escrito em 2004, recentemente (07/01/2012) eu tive a honra de apresentá-lo no Sarau "A Plenos Pulmões" da "Casa das Rosas". Para mim, declamar este poema, cuja intenção é de apenas prestar uma homenagem a esta cidade brasileira extremamente problemática e complexa, mas ao mesmo tempo fascinante, foi uma experiência incrível. Declamar São Paulo em plena Avenida Paulista teve um gosto especial. Abraços ao poeta Marco Pezão, que com simpatia e carisma conduz tão bem o Sarau "A Plenos Pulmões". São Paulo, parabéns por mais um aniversário. Saudações a todos, Vôgaluz. 
São Paulo
que jamais espera.
São Paulo
que nunca se entrega.
São Paulo,
cidade de sonhos.
São Paulo,
frágeis e medonhos.
São Paulo,
não me desanime.
São Paulo
que não se define.
São Paulo,
sigo o teu destino.
São Paulo,
faça-me menino.


Cidade de ferro,
de concreto e aço,
nada de mais belo
há no teu espaço
que o teu homem moço,
que o teu velho triste,
neste ledo esboço
nada mais existe.
E formosa segues
pelas sujas ruas
de cuidados breves,
e as cabeças nuas
do povo que ferve
no teu clima louco,
mas ninguém se atreve
a perder teu jogo.
És locomotiva
do país febril,
bem pouco atrativa,
natureza ardil,
amo-te São Paulo,
cidade teimosa,
corro os teus asfaltos
na luta engenhosa.


São Paulo,
trem de Adoniram.
São Paulo,
muita fé pagã.
São Paulo
de Mário de Andrade.
São Paulo,
qual a tua idade?
São Paulo
do Ibirapuera.
São Paulo,
filhos de quimeras.
São Paulo,
Lapa e Liberdade.
São Paulo
de Oswald de Andrade.


Cidade onde tudo
é força motriz,
não colhes do fruto,
preferes raiz,
o teu destempero
merece atenção,
caminhas no peito
da população.
Exalas paixão,
cidade aclamada,
em cada estação
há filas paradas,
no teu pobre esbulho
de fé verdadeira,
demonstras orgulho
de ser brasileira.
Princesinha eclética,
cidade difícil,
construção poética
dos teus edifícios,
tua gente heroica
vive empedernida
nesta lida exótica
pelas avenidas.


São Paulo,
do centro expandido.
São Paulo,
mundos divididos.
São Paulo,
Itaquera e Mooca.
São Paulo,
saudosa maloca.
São Paulo,
quero o teu divã.
São Paulo,
Ira de Titãs.
São Paulo,
vou ficar aqui.
São Paulo,
cadê Rita Lee?


Velha espaçonave
nada dirigível
teu desterro grave
é teu combustível,
os teus nordestinos,
teus italianos
sofrem desatinos
nos teus desencantos.
Os teus japoneses,
os teus libaneses
e outros povos mais
no teu solo em paz,
vida que não pára,
todo dia igual,
o tempo ultrapassa
o teu carnaval.
Midas hipotético
de existência crônica,
sussurro profético
da orquestra sinfônica.
Natureza insólita
de sangue e suor,
tua paz hipócrita
será bem melhor.


São Paulo...  São Paulo...  São Paulo...


Vivo São Paulo.
Amo São Paulo.
Saúdo São Paulo.




(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ODE À DEUSA DA VOZ (Elis Regina)


Eu tinha apenas nove anos
quando soube que partiste,
já são tantos os enganos
que hoje sei o quanto existes
nas músicas que ficaram
como se em placas de pedra,
que ninguém mais interpreta,
pois as vozes se calaram
abafadas pela tua
voz marcante, quase crua,
sentimento à flor da pele
da mulher que nada deve
às deusas das várias épocas
da música mundial,
comoventes flores bélicas
de existência visceral.



No teu sorriso gostoso
havia um falso brilhante
de uma tristeza gritante
tal qual vulcão em repouso.
És uma estrela no céu,
nos palcos da eternidade,
um barquinho de papel
que as águas todas invadem.



Chegaste ao fim do caminho
e cedo demais deixaste
todos nós sem teu carinho
e a alegria que guardaste.
Elis, só agora te entendo,
depois destes longos anos,
cada vez mais me envolvendo
com os teus doces encantos,
que foste embora depressa
levando os sonhos que vagam,
porque todo show começa
pelas luzes que se apagam.

(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005)