sábado, 13 de setembro de 2014

PEQUENA

Pequena,
os hipócritas na sala de espera têm sorrisos amarelos,
mas você me fortalece com sua atenção.
Passo dias inteiros a me lembrar do seu rosto
e noites a fio a pensar no futuro.
Pequena,
os inimigos estão a postos,
são tanques de guerra contra nossos corações.
Nós somos flores e eles flutuam sobre o nosso jardim.
No entanto, o magnetismo do seu carisma
fez de toda a artilharia inimiga versos de um poema.
Pequena,
quando eu não podia mais caminhar
você me levou pra bem longe e tudo o que eu queria era voltar
pra ver novamente a minha vida nos seus olhos.
E agora, de cara lavada, tento ter coragem pra pedir
- pela última vez-
pra você cuidar de mim.
Pequena,
você é grande demais!

Vôgaluz - Revocê - 2014

domingo, 3 de agosto de 2014

O Chamado

Se ouvires a voz do amor
na rua cheia de casas onde moras,
corre depressa até a janela,
depressa, depressa, depressa...
acene, gesticule, grite para o amor!
Caso contrário,
ele pode dobrar a próxima esquina
ou descer a primeira ladeira que encontrar pela frente
e nunca mais passar na tua rua.

Vôgaluz - Revocê

sábado, 5 de julho de 2014

ALGUNS POEMAS

Alguns poemas descem as escadas do céu em busca do inferno;
São azuis ou sombrios como os sonhos das virgens cheias de vontades;
Tecem as roupas de vento com as quais o destino se veste;
São tristes formas de dizer “Adeus”.

Alguns poemas fazem as malas e param na porta de saída jurando amor eterno;
Outros se vão para nunca mais;
Se molham na chuva dos teus olhos;
Se atrevem na noite em busca de paz;
Acolhem almas em conflito.

Alguns poemas são gás lacrimogêneo contra a multidão;
Abortam filhos que morrem de medo da escuridão;
Precisam de camisa de força;
Precisam de camisa de vênus;
Servem para ninguém ler.


Alguns poemas, assim como este, jamais deveriam ter sido escritos.


"Alguns Poemas" - REVOCÊ - Vôgaluz - 2014

quarta-feira, 2 de julho de 2014

ANA


eu precisava de você na quarta-feira do dia
10 de outubro de 1984
primavera

enquanto meu rosto menino
sentia coisas de menino

e minha pele transpirava paixão de gente grande

precisava de roupas coloridas
de óculos escuros
de tudo o que nunca tive
inclusive você
não de roupas usadas
não de calças doadas
nem do tênis bamba cabeção
que eu morria de vergonha de usar
em meio a comentários do tipo:
“não tenho coragem”

e lá vinha você cheia de broches do Menudo
com a novela das 8 na ponta da língua
e meu coração na sola dos pés

eu mendigava um pouco de atenção
de um par de olhos altivos
que sabiam me desprezar como ninguém
ah! como eu era bobão

você gostava tanto daquela música
do grupo Grafite
até cantarolava: mama maria
mas eu gostei mais da outra: fantasia
e do clip do Paul MacCartney
era tão bonito
“no more lonely nights”

rabiscava seu nome nas minhas pernas
tatuagem imaginária
estupidamente patética
e minha paz nas suas mãos

você foi embora e nem se despediu
tudo bem, levei algum tempo para descobrir
que eu precisava de você
que eu realmente precisava de você
a milhares de quilômetros da minha vida.

ANA'N'80'S - REVOCÊ - Vôgaluz Miranda

sábado, 8 de junho de 2013

ARTESANATO

O que se faz de qualquer jeito,
Por melhor que pareça,
Não revela o que é belo.

O que se faz com amor,
Por mais simples que seja,
Permanece eterno.


(Vôgaluz Miranda - REVOCÊ - 2013)

sexta-feira, 29 de março de 2013

CAMINHOS


De Ulisses, o regresso
De Hollywood, o sucesso
Do espelho, a imagem
John Lennon, Imagine

Do fel, o amargor
De Jesus, o amor
Das estrelas, o brilho
Dos campos, o milho

Do mar, as ondas
Cinema, Jane Fonda
Do poço, o fundo
Drummond e o mundo

Do pescador, o anzol
Aos mortos, o Seol
Da solidão, a cidade
De você... a saudade


(Vôgaluz Miranda - Caminhos - Revocê - 2013)

sábado, 1 de setembro de 2012

BOB DYLAN























tive a intenção de arriscar voos mais altos
escalei castelos de vento
em busca da resposta
que nunca veio
depois, caí na sarjeta do esquecimento
e contemplei com entusiasmo
um dia para nunca mais
tive a pretensão de caminhar sobre as águas
toquei o seu rosto de ferro fundido
- com dedos de vidro -
até atingir seus lábios
e caminhei a sua estrada de palavras
aproximei-me da igreja de infiéis
continuei morto no abismo da ocasião
senti meus olhos
fixarem-se em cada verso e imagem
enquanto sofria no áspero som
- nudez criativa do começo e do fim -
não sei explicar o que havia de definitivo
não sei definir o que havia de explicável
só sei que havia um cheiro agridoce no ar
morri várias vezes
esmagado pela pedra rolante
e vi quando a nuvem escura forçou a porta do céu
tive medo do desconhecido
mas, apesar de tudo, encontrei a paz
de que tanto precisava.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 15 de julho de 2012

ERROR

Tem um homem parado na esquina
E uma esquina parada num homem
A certeza que mais se aproxima
É que tudo parou de repente

E uma esquina parada num homem
É mistério que teima em ficar
Assombrando a vida que surge
A matar o que é flor na semente

Sei que tudo começa e termina
Basta o sol neste rosto encardido
Deste homem parado e perdido
Que é uma esquina parada na esquina

(In: Canções para os intervalos)

sábado, 23 de junho de 2012

SÃO JOÃO



Me lembro do povo unido
e das crianças felizes
brincando de pega-pega
na noite fria e concreta
de um mundo triste e esquecido,
"Esquina das Meretrizes".  
Meu coração ainda arde
cheio de tanta paixão,
e a mocinha na janela,
fiz estes versos pra ela,
toda saudade me invade
fogueira de São João.

(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005)

sexta-feira, 8 de junho de 2012

LACUNA

entre mim e o tempo
há uma lacuna
espaço vazio
de vento e frio
de saudade
do calor do teu beijo

entre mim e o amanhã
há o medo
medo de ter medo
do medo
que afugenta o mais bravo leão

quando a noite vem
ninguém vem
quando as palavras somem
todos entendem
que a vida é abismo
caminho de pedras pontiagudas
brilhantes
onde sangram pés
cortados
arranhados
em desamor
em desarmonia
sem fé no dia a dia
e os dias se vão

ainda resta um coração aos pedaços
dividido entre as horas
entre a estrela e o punhal
no corte da carne quente
desta alma que sofre reprimida
transtornada pela vida

entre mim e a frustração
há uma granada
vislumbro meus braços cortados
servidos à mesa
enquanto meus olhos em desespero
esperam pelo talvez

(Canções para os intervalos)

domingo, 27 de maio de 2012

VELHA PALAVRA NOVA















Sei que você se cansou
Daquelas frases feitas
Sempre imperfeitas
- Patrimônio Histórico da Futilidade –
Muito chatas
E sem fundamento

Sei que pra você
Os meus versos são sempre os mesmos
Todos os versos são sempre os mesmos
Porque a poesia anda em círculos
E as palavras não mudam
São duras
Forjadas
Temperadas
De uso corriqueiro
Ou escondidas para fins mesquinhos

Tudo bem. Mas olha só!
Há algo diferente nesta que vai
Não vou falar de flores
Que não vou rimar com amores ou... dores
Eu trouxe pra você uma palavra sempre nova
- Não nova na grafia, é verdade –
Porém sempre rejuvenescida no significado
Na qualidade
Na ação
Na intensidade
Diferente visceral verbal. Sei lá!
Ouça bem, meu bem!
A palavra é: RECOMEÇAR

R E C O M E Ç A R

O Ministério da Saúde deveria advertir:
RECOMEÇAR FAZ BEM À VIDA,
CONJUGUE SEMPRE ESTE VERBO.

(In: Canções para os intervalos)

terça-feira, 1 de maio de 2012

IMPOSTO

imposto composto suposto sufoco mensal
assim faço que disfarço a surpresa boçal
não posso passar o mês sem saúde mental
sinto saudade da infância longe da sanha legal
sofro servo do sistema sem sonho sem sucesso
imposto, sossego e solicitude é só o que peço

(Canções para os intervalos)

sábado, 31 de março de 2012

SÃO TOMÉ

Acordei no breu da noite
Levantei da cama fria
Perdido na madrugada
A casa estava vazia
Tremendo de desespero
Rezei pra Santa Maria
Nunca quis acreditar
Nas coisas que me diziam
Pediram-me paciência
Que tudo melhoraria
Era questão de urgência
Mentira sobre mentira
Meus olhos viram cansados
A face da hipocrisia
Naquilo que me contavam
Naquilo que me diziam
Alice foi enforcada
No país das maravilhas
A sorte estava lançada
Mas ela não saberia
Que a forca nada mais é
Que uma falsa artilharia
De tudo o que ela pensava
De tudo o que ela fazia
Minha história é diferente
Tem no beijo a primazia
De tudo o que me contaram
De tudo o que me diziam
Mas eu nunca acreditei
Jamais acreditaria
Numa mensagem de paz
Nascida da covardia.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

* Pintura acima "a incredulidade de São Tomé", Caravaggio, 1599.

sábado, 17 de março de 2012

NATIMORTOS


Toda dor, cada passo
Todo acaso é de fato
Um menino sem destino
Ou menina pequenina
Que a fumaça traz no vento
Quando abafa um lamento
Um gemido inocente
De quem grita em silêncio.

Mas acorda quem dormia
No reflexo da agonia
Que se chama desespero
E mistura no agridoce
Sabor fresco de alguns dias
Sem canção, sem paixão
Mutilados corações
Adormecidos, natimortos.

(In: Canções para os intervalos)

quinta-feira, 1 de março de 2012

JOANNA

Ela já não tem vontade de viver
Sua mocidade foi tirada à força
O filho desejado nunca existirá
Não divide o seu drama com ninguém
Apenas cinco minutos de crueldade
Destruíram uma vida pra sempre

Joanna não quer mais amar ninguém
Joanna não vai mais à escola
Vai ao psiquiatra sozinha e da janela vê
Que as flores estão mortas no jardim

Na delegacia nada teve importância
Tinha dezesseis anos e nada a dizer
Sobre os seus sonhos interrompidos
Joanna vive presa no seu quarto escuro

E olha a foto do namorado que a deixou
É difícil crer que algo vai mudar
Joanna pensa em suicídio, pois não encontra
Nenhum remédio que alivie a sua dor

Joanna não pode mais amar ninguém
Joanna nunca mais foi à escola
Vai ao psiquiatra sozinha e da janela vê
Que as flores estão mortas no jardim.

(Letra: Vôgaluz Miranda / Música: Wagner Miranda - ano 1993)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

ATRÁS DO POEMA

O que se esconde atrás do poema
Por ventura é realidade?
Entrega-se ao que não se tem
Estraga o que lhe convém
Sucumbe à fatalidade.

O que se esconde atrás do poema
É distração antidepressiva?
É tudo o que procura nada
Corte profundo
Lâmina afiada
É o que me resta nesta intensa vida.

O que se esconde atrás do poema
É, por acaso, um pouco atrevido?
É tensão em calma dissimulada
É canção triste e acalentada
É amor mal resolvido.

(in: Canções para os intervalos)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

CAMALEÃO

Camaleão
Tuas mudanças
Fazem de ti
Tão bonitinho
Sobre os teus ombros
O mundo pesa
Em tuas mãos
Tens meu destino
Todas as cores
Dentro do som
Levam adiante
Tua vontade
De estar em paz
De ir em frente
De ver a vida
Bem colorida
Leio contigo
Tantos jornais
Tantas revistas
Métrica e rima
Do mesmo livro
Quero que a chuva
Molhe tua pele
Quero que o sol
Seque teus pés
Sozinho pensas
A noite inteira
Nos teus amores
Que não têm fim
Sentes o gosto
Do sal do mar
Na tua boca
Rosa e vermelha
Fazes teus planos
Crias teus filhos
São todos eles
De algum lugar
Trocas de roupa
Trocas de carro
Trocas de casa
Sem se mudar
Camaleão
Não tenhas medo
De ser amigo
Tens no teu peito
Uma certeza
Não há paixão
Que te segure
Tudo o que sopra
É o mesmo vento
E caminhamos
A mesma trilha
Sem que saibamos
Onde chegar

Camaleão
Tarde demais
Por natureza
Somos iguais


(In: Canções para os intervalos - 2011)