domingo, 19 de fevereiro de 2012

ATRÁS DO POEMA

O que se esconde atrás do poema
Por ventura é realidade?
Entrega-se ao que não se tem
Estraga o que lhe convém
Sucumbe à fatalidade.

O que se esconde atrás do poema
É distração antidepressiva?
É tudo o que procura nada
Corte profundo
Lâmina afiada
É o que me resta nesta intensa vida.

O que se esconde atrás do poema
É, por acaso, um pouco atrevido?
É tensão em calma dissimulada
É canção triste e acalentada
É amor mal resolvido.

(in: Canções para os intervalos)

domingo, 5 de fevereiro de 2012

CAMALEÃO

Camaleão
Tuas mudanças
Fazem de ti
Tão bonitinho
Sobre os teus ombros
O mundo pesa
Em tuas mãos
Tens meu destino
Todas as cores
Dentro do som
Levam adiante
Tua vontade
De estar em paz
De ir em frente
De ver a vida
Bem colorida
Leio contigo
Tantos jornais
Tantas revistas
Métrica e rima
Do mesmo livro
Quero que a chuva
Molhe tua pele
Quero que o sol
Seque teus pés
Sozinho pensas
A noite inteira
Nos teus amores
Que não têm fim
Sentes o gosto
Do sal do mar
Na tua boca
Rosa e vermelha
Fazes teus planos
Crias teus filhos
São todos eles
De algum lugar
Trocas de roupa
Trocas de carro
Trocas de casa
Sem se mudar
Camaleão
Não tenhas medo
De ser amigo
Tens no teu peito
Uma certeza
Não há paixão
Que te segure
Tudo o que sopra
É o mesmo vento
E caminhamos
A mesma trilha
Sem que saibamos
Onde chegar

Camaleão
Tarde demais
Por natureza
Somos iguais


(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 29 de janeiro de 2012

FOUR LITTLE BIRDS


O primeiro passarinho
Pousou no galho da mangueira,
Voou por entre as árvores do bosque
E se perdeu de vista.

O segundo passarinho
Caiu trucidado.
Estúpida pedra
Maldito estilingue.

O terceiro passarinho
Pousou na minha mão,
Depois no meu ombro
E uma nova mensagem
Soprou no meu ouvido.

O quarto passarinho
Jamais
Apareceu.


(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)

sábado, 21 de janeiro de 2012

SÃO PAULO

 Nota do poeta: Este poema foi escrito em 2004, recentemente (07/01/2012) eu tive a honra de apresentá-lo no Sarau "A Plenos Pulmões" da "Casa das Rosas". Para mim, declamar este poema, cuja intenção é de apenas prestar uma homenagem a esta cidade brasileira extremamente problemática e complexa, mas ao mesmo tempo fascinante, foi uma experiência incrível. Declamar São Paulo em plena Avenida Paulista teve um gosto especial. Abraços ao poeta Marco Pezão, que com simpatia e carisma conduz tão bem o Sarau "A Plenos Pulmões". São Paulo, parabéns por mais um aniversário. Saudações a todos, Vôgaluz. 
São Paulo
que jamais espera.
São Paulo
que nunca se entrega.
São Paulo,
cidade de sonhos.
São Paulo,
frágeis e medonhos.
São Paulo,
não me desanime.
São Paulo
que não se define.
São Paulo,
sigo o teu destino.
São Paulo,
faça-me menino.


Cidade de ferro,
de concreto e aço,
nada de mais belo
há no teu espaço
que o teu homem moço,
que o teu velho triste,
neste ledo esboço
nada mais existe.
E formosa segues
pelas sujas ruas
de cuidados breves,
e as cabeças nuas
do povo que ferve
no teu clima louco,
mas ninguém se atreve
a perder teu jogo.
És locomotiva
do país febril,
bem pouco atrativa,
natureza ardil,
amo-te São Paulo,
cidade teimosa,
corro os teus asfaltos
na luta engenhosa.


São Paulo,
trem de Adoniram.
São Paulo,
muita fé pagã.
São Paulo
de Mário de Andrade.
São Paulo,
qual a tua idade?
São Paulo
do Ibirapuera.
São Paulo,
filhos de quimeras.
São Paulo,
Lapa e Liberdade.
São Paulo
de Oswald de Andrade.


Cidade onde tudo
é força motriz,
não colhes do fruto,
preferes raiz,
o teu destempero
merece atenção,
caminhas no peito
da população.
Exalas paixão,
cidade aclamada,
em cada estação
há filas paradas,
no teu pobre esbulho
de fé verdadeira,
demonstras orgulho
de ser brasileira.
Princesinha eclética,
cidade difícil,
construção poética
dos teus edifícios,
tua gente heroica
vive empedernida
nesta lida exótica
pelas avenidas.


São Paulo,
do centro expandido.
São Paulo,
mundos divididos.
São Paulo,
Itaquera e Mooca.
São Paulo,
saudosa maloca.
São Paulo,
quero o teu divã.
São Paulo,
Ira de Titãs.
São Paulo,
vou ficar aqui.
São Paulo,
cadê Rita Lee?


Velha espaçonave
nada dirigível
teu desterro grave
é teu combustível,
os teus nordestinos,
teus italianos
sofrem desatinos
nos teus desencantos.
Os teus japoneses,
os teus libaneses
e outros povos mais
no teu solo em paz,
vida que não pára,
todo dia igual,
o tempo ultrapassa
o teu carnaval.
Midas hipotético
de existência crônica,
sussurro profético
da orquestra sinfônica.
Natureza insólita
de sangue e suor,
tua paz hipócrita
será bem melhor.


São Paulo...  São Paulo...  São Paulo...


Vivo São Paulo.
Amo São Paulo.
Saúdo São Paulo.




(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005)

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

ODE À DEUSA DA VOZ (Elis Regina)


Eu tinha apenas nove anos
quando soube que partiste,
já são tantos os enganos
que hoje sei o quanto existes
nas músicas que ficaram
como se em placas de pedra,
que ninguém mais interpreta,
pois as vozes se calaram
abafadas pela tua
voz marcante, quase crua,
sentimento à flor da pele
da mulher que nada deve
às deusas das várias épocas
da música mundial,
comoventes flores bélicas
de existência visceral.



No teu sorriso gostoso
havia um falso brilhante
de uma tristeza gritante
tal qual vulcão em repouso.
És uma estrela no céu,
nos palcos da eternidade,
um barquinho de papel
que as águas todas invadem.



Chegaste ao fim do caminho
e cedo demais deixaste
todos nós sem teu carinho
e a alegria que guardaste.
Elis, só agora te entendo,
depois destes longos anos,
cada vez mais me envolvendo
com os teus doces encantos,
que foste embora depressa
levando os sonhos que vagam,
porque todo show começa
pelas luzes que se apagam.

(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005) 

sábado, 17 de dezembro de 2011

FIM DE ANO

É fim de ano
Fim do mês
Fim da linha
Fim do mundo
Fundo do poço

Osso com sal grosso

Tempero sem cheiro
E eu juntinho de vocês
Ainda há esperança
Quem sabe no ano que vem...

O asfalto esquenta um sol
Dentro dos meus pés
365 dias assados nas comezinhas
Panelas da cozinha

Um presépio sorry no mesmo lugar
A história é a mesma em qualquer lugar
Por aqui só tem neve de algodão
E pensamos ser tão felizes

É fim de ano
Fim de feira
Fim de festa
Fim de papo
Fundo do poço

Osso com sal grosso

Mas ainda há esperança
Quem sabe no ano que vem...
No ano que vem
Quem sabe...

(In: Canções para os intervalos - 2011)

sábado, 10 de dezembro de 2011

VERSO E CORDEL


Prometi um poema pra Rosa
Um poema enfeitado de ouro
Muito belo, que brilhe no escuro
Fale alto aos ouvidos mais surdos
Um poema cercado de prosa.

Prometi um poema pra Beth
Um poema talvez derradeiro
Como flor num jardim solitário
Como carta sem destinatário
Como ver carnaval sem confete

Prometi um poema pra mim
Que ele fosse bem simples, singelo
Protegido dos sonhos alheios
Tendo frases de amor verdadeiro
Um poema que eu nunca escrevi
Mas não tive coragem pra tanto
Mesmo assim fez-se em mim o encanto
Vi meu lápis riscar o papel
Com histórias de vidas melhores
Numa escrita que mal se resolve
Nesta sina de verso e cordel

(In: Canções para os intervalos - 2011)

sábado, 3 de dezembro de 2011

CONTEMPORARY LITERARY HORIZON

Amigos,
Gostaria de utilizar este espaço, que dedico geralmente à poesia, para divulgar um trabalho realizado na Romênia em prol da literatura e cultura contemporânea universal. A revista "Horizonte da Literatura Contemporânea", por intermédio do escritor e jornalista romeno Daniel Dragomirescu,  está fazendo um trabalho muito dignificante para os amantes da boa literatura. A mencionada publicação, com apoio da Universidade de Bucareste, se dedica à divulgação de escritores, poetas e artistas do mundo inteiro, podemos acompanhar trabalhos da Romênia, da China, do Kênia, dos Estados Unidos, da Espanha, enfim, é um trabalho democrático em favor da cultura universal. Aqui no Brasil, a revista conta com a colaboração da jornalista e escritora Oziella Inocencio e agora tenho a honra e o privilégio de ter um pequeno fragmento de um poema meu publicado no blog da revista e também em suas páginas, cuja publicação em papel é distribuída na Romênia, na Espanha, na Itália, mas quem sabe logo poderemos tê-la aqui também no Brasil. Gostaria de parabenizar o trabalho de Daniel Dragomirescu pela cultura universal e desejo à revista "Horizonte da Literatura Contemporânea" muito sucesso e muitos leitores pelo mundo afora. Abraços a todos. Vôgaluz

Confiram a revista no blog: http://contemporaryhorizon.blogspot.com/

sábado, 26 de novembro de 2011

HERÓIS


Não existem heróis, assim entendo.
Heróis são criaturas passageiras,
são ídolos talhados em madeira
com os rostos marcados pelo medo,


criados pelos métodos inúteis
das vaidades humanas enrustidas,
tolas finalidades vãs e fúteis
dos homens da verdade corrompida.


Heróis acordam cedo e vão à luta,
não conhecem derrotas ou vitórias,
merecem melhor vida por inteiro,


conhecem a firmeza da labuta,
não precisam de estátuas ou de glórias.
Heróis? Prefiro o povo brasileiro.

  

Obs 1.: In "O Perfume do Tempo - 2004/2005

Obs 2.: Poema apresentado na 17ª edição do Concurso de Poesias Prof.º Fábio Teixeira

sábado, 19 de novembro de 2011

RETRATO DA VIDA


Eu vi um homem deitado numa calçada
com os olhos fechados.
Parecia dormir.
Sonhava como todos nós sonhamos,
talvez com dias melhores,
talvez com um pouco de sorte.
Provavelmente passara a noite ali,
acompanhado pelas vigilantes luzes dos postes
e por bêbados vadios,
poderia ser também um deles,
apenas mais um bêbado vadio abandonado pela vida.

As marcas no rosto fatigado daquele homem
e os sulcos profundos na pele grossa
denunciavam história ocultas de uma vida,
derrotas,
vitórias,
segredos eternos,
quem sabe,
filhos,
irmãos,
uma mulher amada ou
um grande amor perdido na estrada.
Mas ali, naquela calçada, não havia ninguém,
só ele,
só.

Eu vi um homem deitado numa calçada,
já não era homem,
era um farrapo,
era de plástico,
papel rasgado,
era de lixo,
era um flagelo
dentro da sociedade e ao mesmo tempo
fora dela.
Talvez vencido pela modernidade,
pelo mundo moderno,
pela vida moderna,
monstruosidade intrínseca.

Eu vi um homem deitado numa calçada.
Mas vi também quando ele se levantou,
arrumou seus poucos pertences numa sacola surrada
e caminhou sozinho pela rua
à procura de outra chance.
E, por um instante, lembrei-me do encanto de Carlitos.
São tantos os encantos.
São tantos os desencantos.
São tantos os Carlitos.
Meu Deus!

(In: O Perfume do Tempo - 2004/2005)