sexta-feira, 26 de agosto de 2011

GOTA A GOTA


pingo pinga pingo
pinga pingo pinga
pingo pingo pingo

prato prego pulga
pano placa pluma
pato ponto primo
punho perna pino

pingo pingo pingo

perdeu o tempo que tinha
cuidando da vida alheia
quando se deu conta disso
estava velha e feia

pinga pinga pingo

pito pena puta
palma peça puma
pomba porco paca
pinto pêlo pata

pingo pingo pinga

se eu mandasse no mundo
parava o tempo agora
só pra gastá-lo contigo
sem pressa, senhora

pingo pinga gota
pinga gota gota
gota gota gota

gato gleba gomo
gado galo gorro
gaita garça grana
goma grito grama

gota gota gota

mentia tanto, mas tanto,
que fugia da realidade
tudo o que diziam pra ele
achava que era verdade

gota gota gota

grilo gana glande
gola gula grande
gago guia gueto
gerra gruta grelo

gota gota gota

se eu fosse um foguete
e pudesse voar
eu levava os políticos
pra em Marte morar

gota pinga gota

pingo pinga gota
vida pinga morte
morte gota vida
pinga viva vida 

(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011) 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

BLOG


Adoro entrar no teu blog
Sim, nele me satisfaço
Visito cada postagem
Parece meu este espaço
Pra descansar minha mente
De tanta gente que mente
Enquanto o planeta explode
Adoro entrar no teu blog.

Parece mesmo que escreves
Para mim tantas palavras
Ilustrações e pinturas
No blog estão estampadas
Um mundo a se descobrir
Revela um pouco de ti
De tudo o que se renove
Adoro entrar no teu blog.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

TARDE CINZA


Dedicado à professora Setuko

Era uma tarde nublada do mês de agosto de 1987.
Ela chegou meio calada, óculos escuros, roupas escuras,
Nenhuma palavra.
Estampava no rosto uma tristeza incompreensível para a minha indiferença.
Trazia no peito a repentina saudade inalcançável para os meus 14 anos.
Ela sentia no fundo da alma a perda irreparável de um irmão que havia deixado tantas palavras, tantos enredos, sonhos, esperança, perspectivas de um mundo melhor.
Eu nem sabia do que se tratava, mas achei estranho aquele comportamento.
Ela fechou a porta e caminhou até o centro da sala de aula, retirou os óculos e todos notaram a vermelhidão em seus olhos, e todos notaram a tristeza em seu olhar.
Eu nem sabia do que se tratava.
Eu nem sabia que aquele momento ficaria para sempre na minha memória e no meu coração órfão de pronto.
Ela respirou profundamente e, dirigindo-se a todos, disse com a voz embargada:
"Pessoal, estamos de luto. Hoje morreu o poeta Carlos Drummond de Andrade."
Naquela ocasião, eu, que até então não estava nem aí, senti que em minha redoma juvenil o vidro havia se quebrado.

TARDE CINZA - Vôgaluz Miranda
In: Canções para os intervalos - ano 2011



sexta-feira, 29 de julho de 2011

A BALADA DO CANTADOR


“Cantador, onde o teu canto
toca no céu cada estrela
há um sofrível encanto
e uma eufórica tristeza.
Tua magia, de fato,
vem do teu canto bonito.
Canta, anjo intemerato!
Canta no espaço infinito!”


Certo Cantador cantava
pelas ruas da cidade
e a plenos pulmões bufava
com toda fidelidade
coisas da vida mesquinha
de um povo sem esperança,
quando chegava à pracinha
logo encontrava as crianças,
formava-se um coro de anjos
em total fraternidade,
e os serafins e arcanjos
encantavam a cidade.

Do Cantador se dizia:
“Um maluco desvairado.”
Mas no fundo não se via
homem mais apaixonado.
Amava a vida das ruas
feito um herói vagabundo,
que cantando chegava à lua
num sentimento fecundo.

E ao cantar pela cidade
chamava muita atenção,
havia quem com maldade
rogasse praga à função:
“Maldito esse cantador
que não nos deixa dormir
ou acordar pro labor
sem essas joças ouvir.”

Indagavam-no por vezes:
“Por que cantas, cantador?
Vão-se os dias, vão-se os meses,
Vão-se os anos nesse ardor.”

Cantando ele respondia:
“Canto por necessidade,
não vivo melancolia,
vivo musicalidade.
Quem canta os males espanta,
dizia o velho ditado,
feliz é aquele que canta,
porque vive remediado.”
E cantando ele vivia
naquela alegre missão,
era de noite ou de dia
entregue em cada canção.

Um grupo se reuniu,
mulheres e homens sem pompa,
gente de fundo vazio
reclama da própria sombra:
“Vamos calar a boca
do cantador de uma figa,
aquela figura louca,
vagabunda e pervertida.”

Chamaram o delegado
pra dar um jeito na marra,
e ao povo descontrolado
o nobre da lei falava:
“Qual crime foi cometido
pelo cantador maluco,
que só canta esbaforido
toda a tristeza do mundo?”

“O crime é de vadiagem.”
“Ele corrompe as crianças.”
“Deve sumir da cidade.”
Vinha dos reis da lambança.

“Não sei se cantar é crime.”
Retrucou o delegado.
“Mas se algo assim se define,
meto-o já no quadrado.”

Levaram o cantador
algemado pra cadeia,
consumado estava o horror,
era meio-dia e meia.
Na sala do delegado,
se assim o povo deseja,
ao cantador questionavam
qual era a sua peleja.
“Vivo a cantar nossa vida,
não incomodo ninguém,
será atitude atrevida
levar-me daqui pra além.”

“Cala a boca, vagabundo!”
Desferiu o inquiridor,
que em vocabulário imundo
aprisionou o cantador.
Este a cantar se encerrou,
livre do guarda frajola,
qual pássaro não cantou
quando trancado em gaiola?

E passaram-se alguns dias,
até que numa manhã,
pasmo e confuso o vigia:
“Deus! Cadê o metido a Pã?”
A cela estava vazia
e os cadeados fechados,
então com qual primazia
havia dali escapado?
O vigia atordoado
benzeu-se pelo que viu:
“Isso é coisa do diabo,
como esse homem sumiu?
Passei a noite acordado
vigiando o cantador,
nada se explica de fato,
vou me estrepar com o doutor.”

Assim que acabou a história
de quem vivia a cantar,
algo nasceu na memória
do povo daquele lugar.
Muitos diziam ter visto
na noite de lua cheia
um objeto imprevisto
pairado sobre a cadeia,
que com luzes escarlates
revestiu todo o concreto
e rumou pra qualquer parte
deste infinito Universo.

Criou-se grande contenda
sobre o cantador das ruas,
muitos agora sustentam
que hoje ele canta na lua.

Há quem ouça estranhamente
nas madrugas tranquilas
uma voz indiferente
em cantoria atrevida:
“Ninguém soube entender
a sina que era só minha,
mas daqui poderei ver
o teu fim, gente mesquinha!
Tenho estrelas ao meu lado
e o infinito à minha frente,
jamais ficarei calado,
cantarei eternamente!”

(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)

domingo, 24 de julho de 2011

CORINTHIANS (POEMA)


Minha terra tem Corinthians
Onde o povo reinará;
A Nação toda acompanha
O time que vai jogar.

Nossos gols têm alegria,
Nossos títulos mais dores,
Nossa paz é preta e branca,
Fusão e ausência das cores.

Vou sonhar contigo à noite,
Se perder ou se ganhar;
Minha terra tem Corinthians
Onde o povo reinará.

O Timão tem seus valores
Que ninguém pode abalar;
Vou sonhar contigo à noite,
Se perder ou se ganhar;
Minha terra tem Corinthians
Onde o povo reinará.

Coringão, Deus te proteja,
Aqui e em todo lugar;
Que eu delire de emoção
Vendo o meu time jogar;
Na terra do meu Corinthians
O povo é que vai reinar.

(In: Canções para os intervalos - 2011)  


Obs.: Paródia do poema “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias.


sexta-feira, 15 de julho de 2011

POEMA DA NOITE EM CLARO


As luzes que vêm de fora
Iluminam minha mente
Em silêncio, ouço gritos
Vindo de bares distantes.

As paredes inclinadas
Denunciam e eu entendo
Que em qualquer canto da sala
Um fantasma se diverte
Batendo nos móveis
Estralando os quadros
De fotos antigas
De tantos fantasmas.

Quem me dera em sonho
Eu fosse criança
No colo do pai
Nos braços da mãe
Sem medo de nada
Sem medo do mundo
Nem deste fantasma
Chamado Ilusão.

Resta-me o café noturno
Uma dose de conhaque
Que despreze um sentimento
Meu sono me foi roubado
Pelo barulho da moto
Amiga do asfalto duro
A noite pertence aos gatos
Eu pertenço à solidão.

Preciso da exatidão da sala escura
Preciso vivenciar meu desespero
Revelador deste morto de olhos abertos
Que sonha acordado com coisas da vida.

Poemas sobem ao teto
São tantos livros. Meu Deus!
Há um gosto amargo na boca
Ando esquecido de mim.

Nos becos, caminham bêbados
Choram mulheres perdidas
Os homens não têm razão
Quando abandonam crianças.

Via satélite vejo
O amor na televisão
A madrugada promete
Outros segredos guardados.

O que é que eu posso fazer
Se não me controlo mais?
É que minha alma adormece
Enquanto o dia amanhece.

(In: Canções para os intervalos - 2011)



quinta-feira, 23 de junho de 2011

VIOLINO


Chora violino no final da festa.
Festas são alegres, cheias de gente.
Violinos são tristes e solitários,
Com serenidade propagam no ar
Canções de um tempo distante,
Canções felizes,
Canções tristes,
Violinos são sérios e autoritários.

Chora violino no final da festa.
Festas são como relâmpagos na tempestade
- Rápidas e iluminadas -
Você, violino, é o céu que permanece escuro,
A noite que vai dentro de mim.

Chora violino no final da festa.

Meu sonho de menino
Era ter um violino.
Achava tão bonito
O seu jeito violino.
Agora envelheci,
Aprendi o seu mistério,
Ninguém pode ser dono
Do que não cabe em si.
Porque você está
Nas notas espalhadas
Da música que em paz
Invade nossas almas,
Que sem pedir licença
Exige e impõe respeito,
Seu ritmo vibrante
Caminha contra o vento.

Chora violino no final da festa.
Carrega no seu som um pouco desta dor,
Que sufoca este peito,
Que assombra este espírito.
Mata-me aos poucos com toda propriedade.
Leva-me pra bem longe da melancólica saudade.

Chora violino, é tudo o que me resta.
Chora violino,
Chora no final da festa.

(In: Canções para os intervalos - 2011)



sábado, 11 de junho de 2011

NOSSA SENHORA DA POESIA


Nossa Senhora da Poesia,
Rogai pelos poetas em humilde condição,
Rogai pelos amantes da poesia,
Também pelos poetas que não sabem o que são.

Mãe de toda Inspiração,
Tocai na dimensão exata cada palavra,
Ajudai na construção de cada frase
E mostrai-nos a poesia contida no simples.

Nossa Senhora da Poesia,
Aliviai-me a angústia de todo dia,
Alertai-me para o som de cada melodia
E acolhei-me nos teus braços,
Para que eu morra
- feliz da vida -
No último verso desta oração.

(In: Canções para os intervalos - 2011)



quarta-feira, 8 de junho de 2011

QUANDO A POESIA VOLTAR


Quando a poesia voltar
Debruçado na janela
Sei que esperarei por ela
Numa noite de luar

Quando a poesia voltar
Cantarei versos sacanas
Espalhando sobre a cama
O compromisso de amar

Quando a poesia voltar
Enxugarei minhas lágrimas
Preencherei minhas páginas
Com algo bom de contar

E entre noites mal dormidas
Entre o céu e o inferno
Vivi momentos terríveis
Que pareciam eternos
Sem ter você do meu lado
Sem ter você nos meus versos
Rezei pra Deus proteger
O seu sorriso sincero
De todo mal rebelado
Nada mais pude escrever
Nunca mais pude sonhar
Saltaram do meu passado
Versos que fiz pra você
Perdidos no meu caderno

Desisti de tantas coisas
De alguns poemas risíveis
Mas sei que o amor vencerá
Nos corações mais sensíveis
Nos sentimentos dispersos
Quando a poesia voltar

(In: Canções para os intervalos - 2011)



domingo, 5 de junho de 2011

INVEJA


Se a palidez do luar te fizer suspirar
E relembrar o que se perdeu na estrada
É hora de parar e agradecer...

Agradecer aos que enlouqueceram
Em busca da paz em que acreditavam.

Aos palhaços que sorriram submersos
Na mais pura tristeza.

Àquela paixão que nos mata sem querer.

Ao cego amor que ainda causa inveja.


(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)