quinta-feira, 27 de outubro de 2011

ESPAÑA 82

Que se fez daquele futebol alegre
Daquele suor sagrado
De um dia de sol
Na vida de nós brasileiros
Em campos estrangeiros
Em missão de paz?

Que se fez daqueles meninos
Que bailavam na grama
Que sorriam festivos
À sombra de uma Nação
De brilho amarelo
E de verde esperança?

Que se fez do riso feliz
Do esporte raiz
Que bonito se fez
Que bonito se faz
Daquela ingenuidade serena
Dos milhões de bocas de olhos e ouvidos
De um jeito brasileiro
Que não existe mais?

Agradeço a Deus porque pude ver
O futebol mais lindo
O futebol menino
O futebol poesia
Transbordando melodia
Nos campos espanhóis

O que meus olhos não viram mais.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A CIDADE

A cidade desperta
Impulsiva
Concreta
De olhos arregalados.

A cidade desperta
Cheia de dentes.

Lá estão os prédios
A sujeira dos pátios
As praças sem grama
A vida sem grana
Todos os carros
Cães e gatos
– Abandonados –
Os pés apressados
Os fios e os postes
Os fracos e os fortes.

E quem diria que a cidade
Seria pra sempre cidade?

Lá se vão os sonhos
De cimento e de pedra
Sobre a desprezada periferia
Futebol na favela.
Mas quem preferiria
Partir de mãos abanando
A morrer sem nada, lutando?

A cidade
Às vezes mãe
Às vezes madrasta
Vê suas casas erguidas
Pelos que não têm casa
Pelos que não têm futuro
Pelos que não têm nada.

A vida segue desbaratinada
Sobre o asfalto
Pelas fachadas
Cheias de fumaça
E os homens
E os seus uniformes
Escolas
Igrejas
Cemitérios
Repletos de mortos
Com outros mortos em volta.

O lixo das calçadas
Refletido no luxo das vitrines
Nos carrinhos de pipoca
E nas bicicletas.
Perto da roda-gigante
Alguém se atirou da ponte.
Nos teatros
Nos cinemas
E nas livrarias
A solidão está à venda.

A cidade estampa num cartaz
O desejo impuro de viver em paz.

(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)

domingo, 16 de outubro de 2011

POLITICANALHA


Eu prometo melhorar a saúde;
Eu prometo educação e cultura para o povo;
Prometo baixar o preço dos alimentos;
E elevar os salários é minha meta.

Promessa é dívida, todo mundo sabe!

Prometo que ligarei São Paulo ao Rio,
O Rio ao Nordeste,
O Nordeste ao Norte,
O Norte ao Sul,
Passando, é claro, pelo Centro-Oeste,
Por meio de estradas e trilhos cuidados e conservados com zelo e presteza.

Prometo tirar as crianças abandonadas e os mendigos das ruas;
Prometo moradia à população;
Prometo trabalho, cidadania e justiça a todo cidadão.

A partir de agora, um novo sol brilhará sobre nossas cabeças!
Bem-vindos a um mundo melhor!

Construirei escolas, hospitais e casas populares de montão;
Prometo trazer muito progresso para este país;
Prometo incentivo irrestrito à arte;
Todos terão acesso fácil aos teatros, cinemas, museus, ginásios, exposições e etc.

Promessa é dívida, todo mundo sabe!

Resolverei o problema da segurança pública;
Prometo acabar com a fome;
No meu governo, a dignidade humana finalmente prevalecerá sobre todos os outros direitos;
Prometo acabar com as enchentes;
Prometo transporte público de qualidade;
Reajustarei os vencimentos dos funcionários públicos sem atraso;
E concederei aumento digno aos aposentados.

Promessa é dívida, todo mundo deveria saber!

Prometo baixar os juros bancários a um patamar condizente com a nossa realidade,
Acabarei, assim, com a agiotagem em pele de cordeiro;
Prometo amparo aos necessitados,
A justiça social finalmente sairá do papel.

Prometerei outras promessas na próxima oportunidade.
Prometo, prometi e prometerei.

Promessa é dívida, nem todo mundo se lembra disso!

Em off:
No entanto, prometo, principalmente, que no dia da minha posse
Eu me esquecerei de todas as promessas que fiz,
Mas que isso fique somente entre a gente
Porque ninguém é de ferro,
Sacou, bicho? 

(In: Canções para os intervalos - 2011)

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

TRÊS HAICAIS NO JARDIM

com todos os sonhos
de liberdade e de paz
voa a borboleta


 
em pleno jardim
timidamente se esconde
o tatu-bolinha


 
na palma da mão
como um brinco de brilhantes
dorme a joaninha

(In: Canções para os intervalos - 2011)

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

11 DE OUTUBRO DE 1996


Quando você partiu
Eu não acreditei
Chorei a tarde inteira
Quando você partiu
Agora o que me resta
É colar os pedaços
De algo que se partiu
Quando você partiu

Nem o cheiro do cravo
Camomila e canela
Perde-se na memória
Que o tempo recupera

Quando você se foi
Não pude acreditar
O céu ficou vermelho
Roxo ficou o mar
De todas as lembranças
Ficou um gosto estranho
Que ninguém definiu
Porque você partiu

Que a sua juventude
Sua doce solidão
Tragam a explicação
Pra tanta inquietude
Quando você se foi
Do fim ficou o começo
Que não se definiu
Por que você partiu?

(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 11 de setembro de 2011

ENOLA GAY

Quando as lágrimas secas nos rostos
Misturarem-se às pedras no chão,
Sentirei que a saudade em repouso
Inventou em mim outra canção.

E a canção não contava com a vida,
Era de ossos, poeira e vingança,
Não ficou destruída a lembrança,
O meu fim é o teu nome, querida.

Dos que somente plantavam flores
Desintegradas na ventania
Restou bem pouco de quem jazia
Nas mãos mundanas dos teus senhores.

Nunca, jamais reconhecerei
Qualquer palavra sem sentimento,
Qualquer bandeira sem fundamento,
Em teu silêncio, Enola Gay.

 (In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)

domingo, 4 de setembro de 2011

O HOMEM INVISÍVEL

(In) visivelmente abalado, sujo, só e sem dinheiro, pesava-lhe sobre o pescoço a cabeça de concreto, gritava-lhe nas tripas a marmita de mula: feijão, arroz, cebola e torresmo. Ele seguia sua vida carregado pelos ventos que sopram de vez em quando lançando seus ideais contra os muros das capitais. Enquanto sugavam seu sangue, sua energia, seu tempo, trazia o peito cheio de esperança e as mãos sujas de cimento.

Ninguém reparou seu rosto risivelmente abalado, molhado com pingos de graxa que a chuva trazia do céu, naquela tarde perdida de plena segunda-feira. De repente ouviu: "Escuta aqui filha da puta!". Não, não era com ele. Nem isso era com ele.
No meio-fio da calçada, Avenida Paulista, agachou-se para pegar uma pasta caída e o executivo nem lhe agradeceu. Entrou na padaria, quitanda, farmácia, feira, na zona, na putaria, desceu e subiu a ladeira, entrou pelo túnel, pelo esgoto, pelo cano e não foi notado.
Empalideceu em frente à vitrine da loja de eletrodomésticos fixando a tv com olhos de bomba, ouvindo o governo dizer que o país estava uma maravilha! Pensou na maravilha e na educação de merda, na saúde de merda, no salário de merda, na marmita de mula: feijão, arroz, zoião, de vez em quando pirão, carcaça de peixe.
Bateu cartão de ponto um ano e meio, bateu à porta da igreja e a paz não veio, nem o engraxate na Praça da Sé pediu pelos seus sapatos, talvez soubesse do furo que havia na sola, janela do céu, dava pra ver a lua e as estrelas.
Na banca da esquina viu no jornal que o mandatário supremo expunha um sorriso escancarado pelos dentes e mandíbula que trituravam sua carne e cuspiam seu sangue nas calçadas sujas e fedorentas da Várzea do Carmo, ali mesmo mãos sujas de barro deram o sinal para um ônibus que não parou, e outro, e outro, e mais outro... nenhum parou.
Construiu, lixou, poliu, alisou, pintou, enfeitou tantas casas em que não morou, tantas vidas que não viveu, tantos sonhos que não sonhou.
Sem que ninguém percebesse, desapareceu sem deixar vestígio, planos, preocupação, prestígio, rosto, família, fotografia, documentos, palavras, sentimentos, nome, sobrenome, não deixou lembrança, não deixou saudade. Era sábado de festa, de confusão num bar com paredes caiadas de azul e branco, entre faces frias, na noite fria, ninguém viu nada, de nada sabia, ausência não reclamada, roupa não encontrada, nem ossos, nem corpo, nem alma. Mesmo assim o governo continuava dizendo na tv e nos jornais que o país estava uma maravilha!
Naquela manhã de domingo os pássaros cantavam nos jardins de barro, barulhentos carros entupidos de graxa aqueciam o ar, as feias casas de concreto sorriam pro sol e o mundo nem se deu conta de que havia um morador a menos na face da Terra.

(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)

sábado, 3 de setembro de 2011

É PRECISO AMAR


É preciso amar
Encontrar a fonte
Da felicidade
A bem da verdade
Onde o amor se esconde.

Dou-te o coração
Seja pro que for
Resgata os teus dias
Tuas alegrias
É preciso amor.

É preciso urgência
Segue o meu caminho
Ele é só de flores
Tem de tantas cores
Tem o meu carinho.

Chamei-te a atenção
Já posso sonhar
Um mundo de paz
Sonhos são iguais
É preciso amar.

(In: Canções para os intervalos - 2011)


sexta-feira, 26 de agosto de 2011

GOTA A GOTA


pingo pinga pingo
pinga pingo pinga
pingo pingo pingo

prato prego pulga
pano placa pluma
pato ponto primo
punho perna pino

pingo pingo pingo

perdeu o tempo que tinha
cuidando da vida alheia
quando se deu conta disso
estava velha e feia

pinga pinga pingo

pito pena puta
palma peça puma
pomba porco paca
pinto pêlo pata

pingo pingo pinga

se eu mandasse no mundo
parava o tempo agora
só pra gastá-lo contigo
sem pressa, senhora

pingo pinga gota
pinga gota gota
gota gota gota

gato gleba gomo
gado galo gorro
gaita garça grana
goma grito grama

gota gota gota

mentia tanto, mas tanto,
que fugia da realidade
tudo o que diziam pra ele
achava que era verdade

gota gota gota

grilo gana glande
gola gula grande
gago guia gueto
gerra gruta grelo

gota gota gota

se eu fosse um foguete
e pudesse voar
eu levava os políticos
pra em Marte morar

gota pinga gota

pingo pinga gota
vida pinga morte
morte gota vida
pinga viva vida 

(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011) 

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

BLOG


Adoro entrar no teu blog
Sim, nele me satisfaço
Visito cada postagem
Parece meu este espaço
Pra descansar minha mente
De tanta gente que mente
Enquanto o planeta explode
Adoro entrar no teu blog.

Parece mesmo que escreves
Para mim tantas palavras
Ilustrações e pinturas
No blog estão estampadas
Um mundo a se descobrir
Revela um pouco de ti
De tudo o que se renove
Adoro entrar no teu blog.

(In: Canções para os intervalos - 2011)

domingo, 7 de agosto de 2011

TARDE CINZA


Dedicado à professora Setuko

Era uma tarde nublada do mês de agosto de 1987.
Ela chegou meio calada, óculos escuros, roupas escuras,
Nenhuma palavra.
Estampava no rosto uma tristeza incompreensível para a minha indiferença.
Trazia no peito a repentina saudade inalcançável para os meus 14 anos.
Ela sentia no fundo da alma a perda irreparável de um irmão que havia deixado tantas palavras, tantos enredos, sonhos, esperança, perspectivas de um mundo melhor.
Eu nem sabia do que se tratava, mas achei estranho aquele comportamento.
Ela fechou a porta e caminhou até o centro da sala de aula, retirou os óculos e todos notaram a vermelhidão em seus olhos, e todos notaram a tristeza em seu olhar.
Eu nem sabia do que se tratava.
Eu nem sabia que aquele momento ficaria para sempre na minha memória e no meu coração órfão de pronto.
Ela respirou profundamente e, dirigindo-se a todos, disse com a voz embargada:
"Pessoal, estamos de luto. Hoje morreu o poeta Carlos Drummond de Andrade."
Naquela ocasião, eu, que até então não estava nem aí, senti que em minha redoma juvenil o vidro havia se quebrado.

TARDE CINZA - Vôgaluz Miranda
In: Canções para os intervalos - ano 2011



sexta-feira, 29 de julho de 2011

A BALADA DO CANTADOR


“Cantador, onde o teu canto
toca no céu cada estrela
há um sofrível encanto
e uma eufórica tristeza.
Tua magia, de fato,
vem do teu canto bonito.
Canta, anjo intemerato!
Canta no espaço infinito!”


Certo Cantador cantava
pelas ruas da cidade
e a plenos pulmões bufava
com toda fidelidade
coisas da vida mesquinha
de um povo sem esperança,
quando chegava à pracinha
logo encontrava as crianças,
formava-se um coro de anjos
em total fraternidade,
e os serafins e arcanjos
encantavam a cidade.

Do Cantador se dizia:
“Um maluco desvairado.”
Mas no fundo não se via
homem mais apaixonado.
Amava a vida das ruas
feito um herói vagabundo,
que cantando chegava à lua
num sentimento fecundo.

E ao cantar pela cidade
chamava muita atenção,
havia quem com maldade
rogasse praga à função:
“Maldito esse cantador
que não nos deixa dormir
ou acordar pro labor
sem essas joças ouvir.”

Indagavam-no por vezes:
“Por que cantas, cantador?
Vão-se os dias, vão-se os meses,
Vão-se os anos nesse ardor.”

Cantando ele respondia:
“Canto por necessidade,
não vivo melancolia,
vivo musicalidade.
Quem canta os males espanta,
dizia o velho ditado,
feliz é aquele que canta,
porque vive remediado.”
E cantando ele vivia
naquela alegre missão,
era de noite ou de dia
entregue em cada canção.

Um grupo se reuniu,
mulheres e homens sem pompa,
gente de fundo vazio
reclama da própria sombra:
“Vamos calar a boca
do cantador de uma figa,
aquela figura louca,
vagabunda e pervertida.”

Chamaram o delegado
pra dar um jeito na marra,
e ao povo descontrolado
o nobre da lei falava:
“Qual crime foi cometido
pelo cantador maluco,
que só canta esbaforido
toda a tristeza do mundo?”

“O crime é de vadiagem.”
“Ele corrompe as crianças.”
“Deve sumir da cidade.”
Vinha dos reis da lambança.

“Não sei se cantar é crime.”
Retrucou o delegado.
“Mas se algo assim se define,
meto-o já no quadrado.”

Levaram o cantador
algemado pra cadeia,
consumado estava o horror,
era meio-dia e meia.
Na sala do delegado,
se assim o povo deseja,
ao cantador questionavam
qual era a sua peleja.
“Vivo a cantar nossa vida,
não incomodo ninguém,
será atitude atrevida
levar-me daqui pra além.”

“Cala a boca, vagabundo!”
Desferiu o inquiridor,
que em vocabulário imundo
aprisionou o cantador.
Este a cantar se encerrou,
livre do guarda frajola,
qual pássaro não cantou
quando trancado em gaiola?

E passaram-se alguns dias,
até que numa manhã,
pasmo e confuso o vigia:
“Deus! Cadê o metido a Pã?”
A cela estava vazia
e os cadeados fechados,
então com qual primazia
havia dali escapado?
O vigia atordoado
benzeu-se pelo que viu:
“Isso é coisa do diabo,
como esse homem sumiu?
Passei a noite acordado
vigiando o cantador,
nada se explica de fato,
vou me estrepar com o doutor.”

Assim que acabou a história
de quem vivia a cantar,
algo nasceu na memória
do povo daquele lugar.
Muitos diziam ter visto
na noite de lua cheia
um objeto imprevisto
pairado sobre a cadeia,
que com luzes escarlates
revestiu todo o concreto
e rumou pra qualquer parte
deste infinito Universo.

Criou-se grande contenda
sobre o cantador das ruas,
muitos agora sustentam
que hoje ele canta na lua.

Há quem ouça estranhamente
nas madrugas tranquilas
uma voz indiferente
em cantoria atrevida:
“Ninguém soube entender
a sina que era só minha,
mas daqui poderei ver
o teu fim, gente mesquinha!
Tenho estrelas ao meu lado
e o infinito à minha frente,
jamais ficarei calado,
cantarei eternamente!”

(In: Versorragia Verborrágica - 2006/2011)